Este segundo lugar vale mais do que todos os títulos: a Oasis e os prazeres do corfebol adaptado

“O-a-sis! O-a-sis! O-a-sis!” Isto de disputar os jogos em casa tem as suas vantagens. Uma delas, quiçá a maior, é ter uma claque entusiástica a puxar por nós, com muitos incentivos, aplausos e até pandeiretas.

Foi o que aconteceu esta quinta-feira, no Pavilhão do Lis, nas Cortes, onde a equipa de corfebol adaptado da OASIS – Organização de Apoio e Solidariedade para a Integração Social, de Leiria, disputou a fase final do Torneio Nacional desta modalidade mista que conta já com 600 praticantes em todo o país.

Sob as indicações de Bruno Mourinha e de Tânia Costa, a Dina Rosa, a Sofia Domingues, a Beatriz Bonifácio, a Cláudia Jorge, o Pedro Pereira, o Marco Mota e o André Rodrigues jogaram muito, tiveram a pontaria afinada, espalharam magia e, com o inestimável apoio vindo da bancada, conseguiram chegar à final da prova.

Foi um percurso incrível. Venceram as equipas do Alto do Moinho, de Corroios, e do Grupo de Ação Comunitária, de Lisboa, e só perderam na grande final, frente à Misericórdia de Vila da Conde.

Concluídos os jogos, as sensações eram agridoces. Se por um lado todos estavam satisfeitos pelas grandes exibições, havia também quem estivesse um pouco irritado por não terem conseguido levar a taça de primeiro lugar para a instituição.

Corfebol adaptado contribui para melhorar o espírito de grupo dos utentes da OASIS

Mas quando o treinador lhes disse que estava “muito orgulho” e lembrou que antes da pandemia jogavam na segunda divisão e agora tinham sido os segundos melhores do país, então, “foi uma festa”.

O corfebol adaptado chegou há coisa de cinco anos a esta IPSS, a convite da federação portuguesa da modalidade, que ofereceu material e formação aos técnicos.

Antes, na OASIS, fazia-se atividade física, sim, praticava-se natação e jogava-se boccia, também apenas e só com o objetivo de melhorar as aptidões motoras dos utentes. Nunca com o objetivo de ganhar, revela Bruno Mourinha, também diretor técnico do Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão Social (CACI) da OASIS.

A chegada do corfebol adaptado foi, pois, uma pedrada no charco na prática desportiva na OASIS. “No início foi complicado” que o grupo, composto por indivíduos com doença mental, conseguisse interiorizar a componente competitiva.

“Ficámos em segundo lugar num torneio e eu era o mais aborrecido. A Fátima Pinto, que já não está na nossa instituição, chegou ao pé de mim a dizer para não ficar triste, que tínhamos sido os segundos melhores.”

Utentes da OASIS apoiaram, entusiasmados, os feitos desportivos dos colegas

É assim. Todos os dias, Bruno Mourinha leva uma nova lição para casa, lições que, depois, ele próprio dá. “É incrível como estão sempre a superar os próprios limites. Têm um problema infinito, para o resto dos seus dias, e eles conseguem ultrapassar isso e olhar para a vida de forma positiva.”

Também falámos com os craques, bem-dispostos. Dina Rosa, que “sempre” gostou desta atividade, realça a importância de “saber jogar em equipa”, uma opinião corroborada por André Rodrigues, para quem “ganhar é importante, mas não é o mais importante”. “O que realmente importa é ter contacto com outras pessoas e, acima de tudo, contribuir para o nosso desenvolvimento”, frisa o rapaz.

Estas são, de facto, algumas das mais-valias que também Bruno Mourinha elenca, mas há outras. “Na doença mental, as pessoas isolam-se muito. Dão-se melhor, até, com os funcionários do que com os próprios colegas. A praticar corfebol adaptado criam laços, ganham a sensação de equipa e de apoio na falha, estão uns pelos outros e são solidários, às vezes, até com a outra equipa.”

O que é corfebol adaptado

O corfebol é, por si só, um desporto que concentra em si uma série de valores cooperativos e de igualdade do género, sendo a inclusão das pessoas com deficiência a continuação da promoção destes e de outros valores, como o respeito, a aceitação e a igualdade.

O grande fator diferenciador do corfebol é precisamente a igualdade com que os sexos são tratados. É o único desporto onde é obrigatório que as equipas sejam constituídas por 50% dos participantes do género masculino e 50% do género feminino.

Durante o jogo, homens podem apenas marcar homens e mulheres apenas marcar mulheres. Isso faz com que não haja preconceito devido ao género das pessoas, transformando o desporto num meio altamente eficaz de integração social.

O objetivo principal é introduzir a bola no cesto da equipa adversária. A bola não pode ser driblada e os jogadores não podem dar passos com a bola na mão.

Disputado por equipas de quatro jogadores, o corfebol adaptado surgiu em 2016 com a candidatura ao Programa de Desporto para Todos promovido pelo IPDJ. Tinha como principal objetivo assegurar a participação de pessoas com deficiência intelectual, perturbações do espectro do autismo, trissomia 21 e multideficiência, em igualdade de condições com os restantes cidadãos.

Comentários

  • Bruno Mourinha
    12 Novembro, 2022 @ at 07:56

    Obrigado à Câmara Municipal de Leiria pelo apoio, sempre pronta a estar connosco nestes eventos. Um agradecimento especial ao Miguel Sampaio e Rui Miguel Pragosa pelo excelente trabalho na cobertura deste evento, que tanto dignificaram estes atletas e as suas instituições. Com trabalhos assim a verdadeira inclusão fica mais perto.
    Muito obrigado!

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