B-girl Vanessa é dos Pousos e tornou-se uma lenda do breaking

Ñão há quem não conheça o breaking (ou breakdance), parte da cultura do hip hop criada por afro-americanos e latinos na década de 1970, em Nova Iorque, com o objetivo de pacificar disputas territoriais.

Entre battles e fights, grupos de dançarinos faziam habilidades em disputas para definir quem apresentava os movimentos mais espetaculares, dançando de pé (toprock), no chão (footwork) e fazendo acrobacias (powermove).

Mas hoje, o breaking é um desporto mundialmente consagrado e vai estrear-se nos Jogos Olímpicos de 2024.

É aqui que Leiria entra na equação. Talvez não saiba, mas a cidade viu nascer uma enorme referência da modalidade, que sonha com o apuramento para Paris.

Chama-se Vanessa Farinha – aka b-girl Vanessa – e reside em Londres, onde é uma figura incontornável dentro da modalidade e acredita que a presença no maior evento desportivo do planta pode fazer acabar os preconceitos.

“As pessoas olhavam com repulsa, era o estilo de rua que não servia para nada, que era limpar o chão. Nessa plataforma vão perceber que é muito mais do que dança. Leva pessoas em dificuldade a ver uma luz ao fundo do túnel.”

A paixão era antiga. Andou no ballet e na dança contemporânea, mas lá pelos 14 anos teve uma epifania quando descobriu os clips dançados de Justin Timberlake.

Ficou fascinada entrou nas aulas de hip-hop no ginásio à porta de casa, nos Pousos.

Os pais nunca lhe cortaram as pernas, mas quando em 2010 entrou na Escola Superior de Dança, ainda lhe chamaram a atenção com um “tu vê lá”.

Em Lisboa encontrava as variantes de que mais gostava, sim, mas apenas fora das escola, na Estação do Oriente.

Rapidamente começou a entrar em competições e a ganhar fama nas battles.

Já com o curso superior concluído, restava-lhe ser professora de dança, mas Vanessa não pensava assim e embarcou para Londres.

“Queria dançar primeiro. Fazer parte de alguma companhia e só ensinar mais tarde”, explica a b-girl.

Neste mercado com “muito mais oportunidades nas áreas das artes e da cultura”, habituou-se rapidamente ao cinzento dos dias, mas as oportunidades não chegaram como queria.

Viu-se forçada a trabalhar num restaurante, “porque as contas têm de ser pagas”, mas ainda jogava com um trunfo na manga: o breaking.

“Decidi que ia tentar durante um ano. Se não resultasse, já tinha a certeza de que não era para mim e que tinha de me dedicar a outra coisa.”

Resultou. Mostrou o melhor jogo e deu o melhor show. Provou que merecia estar naquele lugar.

As battles são jogos mentais, há estratégia e tática. O que jogar melhor ganha e para isso é preciso estar preparado, até psicologicamente.

“Atingi um nível que nunca imaginei. Os meus ídolos já eram os meus concorrentes”, admite. E ganhou competições onde “nunca na vida” pensou, sequer, ter a “oportunidade de pisar o palco”.

Em 2019, ganhou um dos eventos mais badalados, o Red Bull BC One do Reino Unido e apurou-se para a final mundial. No ano passado, a prova passou a disputar-se também em Portugal e Vanessa não deu hipóteses à concorrência.

“Tem outro sabor, porque é o meu país. Faz mais sentido. Treinei muito para aqui chegar e esse é mesmo o segredo, é o treino que faz a perfeição.”

Hoje, para Vanessa, o breaking é tudo. É profissão, é hobby, é paixão e até é terapia. “Quando os momentos mais difíceis chegam, sei que posso usar a única coisa que está sempre lá: a dança.”

Fotos: Eva Berten

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